Quinta-feira, 4 de Maio de 2017

Hélida Carvalho - aluna de Zeca Afonso

“Barreiro, 4 de Outubro de 1967

(Quarta-feira)

Segundo dia de aulas. Continua o desassossego, com o pessoal a trocar beijos, abraços e confidências, depois desta longa separação que foram 3 meses e meio de férias. Estávamos todos fartos do verão, com saudades uns dos outros. A sala é a mesma do ano passado, no 1º andar e cheirava a nova, tudo encerado e polido, apesar do material já ser mais que velho. Somos o 7º A e como não chumbou nem veio ninguém de novo, a pauta é exactamente igual à do ano passado. Eu sou o nº 34, e fico sentada na segunda fila, do lado da janela, cá atrás, que é o lugar dos mais altos.

Hoje tivemos, pela primeira vez, Organização Política e apareceu-nos um professor novo, acho que é a primeira vez que dá aulas em Setúbal, dizem que veio corrido de um liceu de Coimbra, por causa da política. Já ontem se falava à boca cheia dele, havia malta muito excitada e contente porque dizem que ele é um fadista afamado. Tenho realmente uma vaga ideia de ouvir o meu tio Diamantino falar dele, mas já não sei se foi por causa da cantoria se por causa da política. A Inês contou que ouviu o pai comentar, em casa, que o homem é todo revolucionário, arranja sarilhos por todo o lado onde passa. Ela diz que ele já esteve preso por causa da política, é capaz de ser comunista. Diferente dos outros professores, é de certeza. Quando entrou na sala, já tinha dado o segundo toque, estava quase no limite da falta. Entrou por ali a dentro, todo despenteado, com uma gabardine na mão e enquanto a atirava para cima da secretária, perguntou-nos:

- Vocês são o 7º A, não são? Desculpem o atraso mas enganei-me e fui parar a outra sala. Não faz mal. Se vocês chegarem atrasados também não vos vou chatear

Tinha um ar simpático, ligeiro, um visual que não se enquadrava nada com a imagem de todos os outros professores. Deu para perceber que as primeiras palavras, aliadas à postura solta e descontraída, começava a cativar toda a gente. A Carolina virou-se para trás e disse-me que já o tinha visto na televisão, a cantar Fado de Coimbra. Realmente o rosto não me era estranho. É alto, feições correctas, embora os dentes não sejam um modelo de perfeição e é bem-parecido, digamos que um homem interessante para se olhar. O Artur soprou-me que ele deve ter uns 36 anos e acho que sim, nota-se que já é velho. Depois das primeiras palavras, sentou-se na secretária, abriu o livro de ponto, rabiscou o que tinha a escrever e ficou uns cinco minutos, em silêncio, a olhar o pátio vazio, através das janelas da sala, impecavelmente limpas. Enquanto ele estava nesta espécie de marasmo nós começámos a bichanar uns com os outros, cada um emitindo a sua opinião, fazendo conjecturas. Às tantas o bichanar foi subindo de tom e já era uma algazarra tão grande que parece tê-lo acordado. Outro qualquer professor já nos teria pregado um raspanete, coberto de ameaças, mas ele não disse nada, como se não tivesse ouvido ou, melhor, não se importasse. Aliás, aposto que nem nos ouviu. O ar dele, enquanto esteve ausente, era tão distante que mais parecia ter-se, efectivamente, evadido da sala. Quando recomeçou a falar connosco, já em pé, em cima do estrado, já tinha ganho o primeiro round de simpatia. Depois, veio o mais surpreendente:

- Bem, eu sou o vosso novo professor de Organização Política, mas devo dizer-vos que não percebo nada disto. Vocês já deram isto o ano passado, não foi? Então sabem, de certeza, mais que eu.

Gargalhada geral.

- Podem rir porque é verdade. Eu não percebo nada disto, as minhas disciplinas, aquelas em que me formei, são História e Filosofia, não tenho culpa que me tivessem posto aqui, tipo castigo, para dar uma matéria que não conheço, nem me interessa. Podia estudar para vir aqui desbobinar, tipo papagaio, mas não estou para isso. Não entro em palhaçadas.

Voltámos a rir, numa sonora gargalhada, tipo coro afinado, mas ele ficou impávido e sereno. Continuava a mostrar um semblante discreto, calmo, simpático.

- Pois é, não vou sobrecarregar a minha massa cinzenta com coisas absolutamente inúteis e falsas. Tudo isto é uma fantochada sem interesse. Não vou perder um minuto do meu estudo com esta porcaria.

Começámos a olhar uns para outros, espantados, nunca na vida nos tinha passado pela frente um professor com tamanha ousadia.

- Eu estudaria, isso sim, uma Organização Política que funcionasse, como noutros países acontece, não é esta fantochada que não passa de pura teoria. Na prática não existe, é uma Constituição carregada de falsidade. Portugal vive numa democracia de fachada, este regime que nos governa é uma ditadura desumana e cruel.

Não se ouvia uma mosca na sala. Os rostos tinham deixado cair o sorriso e estavam agora absolutamente atónitos, vidrados no rosto e nas palavras daquele homem ímpar. O que ele nos estava a dizer é o que ouvimos comentar, todos os dias, aos nossos pais, mas sempre com as devidas recomendações para não o repetirmos na rua porque nunca se sabe quem ouve. A Pide persegue toda a gente como uma nuvem de fumo branco, que se sente mas não se apalpa.

- Repito – eu não percebo nada desta disciplina que vos venho leccionar, nem quero perceber. Estou-me nas tintas para esta porcaria. Mas, atenção, vocês é outra coisa. Vocês vão ter que estudar porque, no final do ano, vão ter que fazer exame para concluírem o vosso 7º ano e puderem entrar na Faculdade. Isso, vocês têm que fazer. Estudar. Para serem homens e mulheres cultos para puderem combater, cada um onde estiver, esta ditadura infame que está a destruir a vossa pátria e a dos vossos filhos. Vocês são o amanhã e são vocês que têm que lutar por um novo país.

Não vão precisar de mim para estudar esta materiazinha de chacha, basta estudarem umas horas e empinam isto num instante. Isto não vale nada. Eu venho dar aulas, preciso de vir, preciso de ganhar a vida, mas as minhas aulas vão ser aulas de cultura e política geral. Vão ficar a saber que há países onde existem regimes diferentes deste, que nos oprime, países onde há liberdade de pensamento e de expressão, educação para todos, cuidados de saúde que não são apenas para os privilegiados, enfim, outras coisas que a seu tempo vos ensinarei. Percebem? Nós temos que aprender a não ser autómatos, a pensar pela nossa cabeça. O Salazar quer fazer de vocês, a juventude deste país, carneiros, mas eu não vou deixar que os meus alunos o sejam. Vou abrir-lhes a porta do conhecimento, da cultura e da verdade. Vou ensinar-lhes que, além fronteiras, há outros mundos e outras hipóteses de vida, que não se configuram a esta ditadura de miséria social e cultural.

Outra coisa, vou ter que vos dar um ponto por período porque vocês têm que ter notas para ir a exame. O ponto que farei será com perguntas do vosso livro que terão que ter a paciência de estudar. A matéria é uma falsidade do princípio ao fim, mas não há volta a dar, para atingirem os vossos mais altos objectivos. Têm que estudar. Se quiserem copiar é com vocês, não vou andar, feita toupeira, a fiscalizá-los, se quiserem trazer o livro e copiar, é uma decisão vossa, no entanto acho que devem começar a endireitar este país no sentido da honestidade, sim porque o nosso país é um país de bufos, de corruptos e de vigaristas. Não falo de vocês, jovens, falo dos homens da minha idade e mais velhos, em qualquer quadrante da sociedade. Nós temos sempre que mostrar o que somos, temos que ser dignos connosco para sermos dignos com os outros. Por isso, acho que não devem copiar. Há que criar princípios de honestidade e isso começa em vocês, os futuros homens e mulheres de Portugal. Não concordam?

Bem, por hoje é tudo, podem sair. Vemo-nos na próxima aula.

Espantoso. Quando ele terminou estava tudo lívido, sem palavras. Que fenómeno é este que aterrou em Setúbal?

Já me esquecia de escrever. Esta ave rara, o nosso professor de Organização Política, chama-se Zeca Afonso.

Barreiro,15 de Novembro de 1967
(Quarta-feira)

Hoje foi dia de haver aula de Organização Política, que são as aulas que nós mais gostamos. O professor, Zeca Afonso, é fabuloso. Não tem nada a ver com os outros, sempre austeros, formais e disciplinadores. Este homem rompe com todos os convencionalismos. Aparece sempre vestido de forma descontraída, amarrotado, acho que nunca, sequer, o vimos de fato completo. Gravata, jamais. Nem deve ter nenhuma, ou talvez tenha para ir a casamentos e baptizados. Usa umas calças, quase sempre sem vinco, umas camisas com o colarinho aberto e camisolas de malha, largas, sem grande trambelho. Às vezes, traz a gabardina que atira para cima da cadeira; outras, vem apenas em corpinho bem feito, deve deixar os abafos na sala dos professores. Entra na aula sempre com um ar simpático, sorridente, sem mostrar muito os dentes, que não são mesmo um modelo de perfeição e ele deve ter consciência disso. Mas também não importa. É um homem bonito, sem ser sedutor. Não sei bem explicar, mas acho que é mais ou menos isto: ele tem umas feições agradáveis de se olhar, pelo menos pelo sexo feminino, mas, depois, não tem sex appel ( não sei se é assim que se escreve.). Quero dizer com isto que não deve ser mulherengo, tipo aqueles homens bonitos que vivem no engate, apenas porque sabem que são jeitosos. Na turma, nós somos, na esmagadora maioria, raparigas, algumas até muitas giras, mas ele nunca dirigiu, a nenhuma de nós, qualquer espécie de olhar que indiciasse malícia. Não. Fala connosco como se falasse com as filhas, sem nenhuma espécie de maldade. Também não faz diferença entre rapazes e raparigas, como o professor de História que se nota, à légua, ter um fraquinho por mim e pela Maria José, em detrimento dos rapazes. Mas o professor de História é podre de velho, já deve ter uns 50 anos e, aqui para nós, até é um bocado baboso. Aquele tipo de velhos que olham, babando-se, com cobiça. Às vezes, está a dar a aula e a olhar-me para as pernas, mal a bata sobe um bocadinho. Só falta salivar. Chiça. O homem é mesmo parvo. Um dia, à saída do liceu, até me ofereceu boleia para o combóio mas não fui nessa. Sei lá se, depois, no carro, ele não esticava a mãozinha para me apalpar as pernas. É preciso cuidado. Quando contei isto ao Carlos Daniel, que é quase meu irmão, ele achou que o velho estava a tentar engatar-me e disse-me que ia ter com ele e dar-lhe um murro no focinho, mas eu empinei-me e respondi que seria uma estupidez porque ele acabaria expulso do liceu e haveria um falatório sem fim. Às tantas, virou-se para mim e teve o descaramento de me dizer que a culpa era minha porque vou para o Liceu com mini saias. Os rapazes, aliás, os homens, são uns machistas. A alarvidade deles é sempre descontada em nós.

O Zeca Afonso é diferente do professor de História, trata tudo por igual, não mostra nenhuma espécie de preferência. Há dias que vem cansado. Entra, senta-se à secretária, dita o sumário, assina o livro de ponto, fecha o livro, empurra-o para um canto da secretária e fica uns minutos, em silêncio, a olhar o pátio sombrio e desfolhado. É um hábito que ele tem. Acho que gosta de reflectir, antes de começar a falar. O que será que ele pensa quando “desaparece” da sala? Nesse entretanto, enquanto ele está absorto nos seus próprios pensamentos, nós vamos bichanando uns com os outros, até o falatório ganhar um volume tão intenso que ele “acorda” do transe e assume a realidade. Normalmente, levanta-se e vem falar connosco, para o meio do estrado, de costas para o quadro negro que, por vezes, é branco, depende da Carolina limpar, ou não, o pó do giz. Ele também não se importa com isso. Tanto se lhe dá. Nunca utiliza o quadro. Quando, como hoje, se sente mais cansado, ou sei lá porquê, recosta-se na cadeira, levanta os pés e as pernas, e estica-os em cima da secretária, como se estivesse na praia.

Agora já não ligamos, já estamos habituadas mas, na primeira vez que ele fez isto, entreolhámo-nos, surpresos, nunca tínhamos visto, na nossa vida de estudantes, nenhuma pose semelhante. Quando contei em casa esta cena, a minha mãe arregalou os olhos e disse-me que aquilo não eram maneiras de um professor se comportar diante dos alunos, são atitudes de gente sem grande educação, tanto pior que ele é professor, devia impor exemplo e respeito, mas eu não respondi porque, se o fizesse, iria defendê-lo e entrar em conflito com a minha mãe. É uma merda, mas nunca estamos de acordo. Muito pior ainda é o relacionamento com o meu pai, que nasceu no tempo da pedra lascada. A minha mãe já nasceu no tempo da pedra polida mas, os dois juntos, associados aos meus avós e às minhas tias, é tudo gente petrificada. Como diz o próprio Zeca Afonso, vivemos numa sociedade preconceituosa e hipócrita, onde todos fazem o que podem mas às escondidas. O mais evoluído da família é o meu tio Diamantino. Tenho que lhe falar neste professor. O Zeca Afonso pensa, em termos políticos, exactamente o mesmo que o meu pai e o meu tio. A diferença é que, aqui em casa, eles falam em surdina, como se estivessem num confessionário e estão constantemente a recomendar-me para que não repita o que ouço, muito especialmente que sintonizam, diariamente, a Rádio Moscovo, e o Zeca Afonso diz o mesmo mas em alto e bom som, sem receios, com uma coragem que admiro, como se não se importasse com as consequências.

A Inês comentou que ouviu o pai dizer que o Zeca já veio de Coimbra devido a perseguições políticas e que até já esteve preso, mas não sabemos se é verdade. Ninguém ainda teve coragem de lhe perguntar. Qualquer dia pergunto-lhe eu. Ele mostra-se tão simpático, afável e aberto que não vai deixar de responder. Uma coisa é certa: nunca nos faz nenhum tipo de advertência para não darmos com a língua nos dentes. O que fala, assume, de cabeça levantada, sem tibiezas. Gosto de gente assim, com personalidade vincada. A mulher dele tem muita sorte. Casou com um homem a sério. Não gosto de medricas que se encolhem. O Zeca mostra que se está borrifando para a Pide, não tem medo. Pensa e diz. Sem reservas. Vê-se, à légua, que é um homem de convicções fortes e que luta por um ideal político. No início, segredava-se, à boca pequena, que é comunista, filiado no partido deles, que nem sei como se chama, mas ele nunca referiu isso. Não deve gostar de rótulos. Talvez não se queira identificar. Diz apenas que toda a vida tem lutado por uma sociedade onde haja liberdade de expressão e igualdade social. O meu pai e o meu tio são comunistas, mas fazem disso um segredo que nem as pedras da calçada podem ouvir. Estão sempre a prevenir-me para fechar o bico. Não sei se o Zeca é comunista ou não, mas o que é facto é que ele, o meu pai, o meu tio e o meu avô Caetano, falam todos a mesma linguagem anti-fascista. Odeiam o Salazar. E o Zeca Afonso di-lo, sem constrangimentos. Critica o governo sem papas na língua. Diz coisas que até arrepiam, tendo em conta as recomendações que todas nós escutamos em casa. Grande homem. Cada vez tenho mais admiração por ele. Compreendo que a minha mãe recrimine a postura de ele pôr os pés em cima da secretária mas é, apenas, porque nunca privou com ele. Quem o conhece, sabe que ele é mesmo assim, um homem interiormente livre, que faz o que lhe dá na real gana, sem olhar a preconceitos, a espartilhos e a tabus. Ele próprio assegura que o ser humano tem que ser livre para ser feliz. As aulas dele são sempre espectaculares. Fala de tudo menos da disciplina. Afirma que se recusa a leccionar hipocrisia e mentiras. Diz, para quem quiser ouvir, que Salazar é um déspota, dos piores que a humanidade conheceu e que a Constituição que nos obrigam a estudar não passa de uma farsa. Praticamente, não abrimos o livro. Às vezes, manda ler umas páginas, poucas, apenas para cumprir uma missão que ele detesta, mas não emite palavra, apenas sorri, com visível escárnio, e quando o leitor termina a peça ele diz: estão a ver, só imposturas, só mentiras.

O Salazar não permite que a Constituição se cumpra. Vivemos numa vergonhosa ditadura, onde nem nos permitem respirar. Estamos amordaçados nas mais elementares liberdades. Nem as eleições são livres. Só lá vai votar quem eles querem e o escrutínio é mais uma palhaçada.

Vocês, quando forem homens e mulheres feitos, com os vossos cursos terminados, têm que reagir e lutar por um país livre e justo. Não se acobardem. Desculpem a minha relutância, sou vosso professor, mas tenho que me honrar a mim próprio para respeitar vocês. Não posso, nem quero, mentir-vos. Ensinar-vos esta disciplina, como ela está estruturada, era pisar na minha consciência e apunhalar a vossa dignidade.

Quero que, um dia mais tarde, vocês me recordem como um professor honesto e decente, que nunca se vergou. Não vou fazer das minhas aulas, um circo. Isso, é lá em Lisboa, nos gabinetes dos fascistas. Se um dia acontecer o milagre de nos tornarmos um país livre, vocês vão lembrar-se de mim e compreender melhor porque é que hoje, diante de vocês, não posso ser cúmplice desta disciplina. Entendem? Vão ter que estudar a matéria para exame, sozinhos, recuso-me a participar nesta pantomina que é estar aqui a desbobinar conceitos sem sentido. Estudem em casa. Vocês empinam isto num instante. É só decorar, como quem empina uma grande estucha. Todos os alunos passam pela situação de ter que estudar grandes fretes. Hoje falou-nos, particularmente, das suas memórias de infância e de adolescência. Curiosamente, disse que nasceu no dia 2 de Agosto. À saída da sala, quando a aula terminou, passei por ele e comentei que nasci no dia 1 de Agosto e que, apenas por um dia, lamentavelmente, não festejava o aniversário na mesma data que ele. O Zeca riu-se e disse: não te importes. O dia 1 é mais bonito, é bom sermos pioneiros de qualquer coisa. Hoje, também nos contou muitas peripécias da sua vida de estudante, em Coimbra, da sua vivência como membro da Tuna Académica de Coimbra e da sua vida de estudante. O Artur pediu-lhe para, um dia, ele nos cantar uns fados de Coimbra, ali na sala e ele prometeu que o fará. Rimo-nos, em conjunto, e ele sorriu também, parecíamos todos da mesma idade. Confessou que não foi aluno brilhante, não era muito aplicado. Também tinha tido uma vida difícil, tipo saltimbanco, frequentemente afastado dos pais e dos irmãos. Até dificuldades económicas passou. Disse-nos que, na próxima aula, vamos fazer umas sabatinas para testarmos a nossa cultura geral. Mau, mau, cheira-me a grandes barracas.

Quando saímos, o Marcelino, enquanto percorríamos o corredor, disse-me, baixinho: Este gajo, qualquer dia é lixado. Se a Pide sabe o que ele fala aqui, vai dar-lhe nos costados. Lá, em Caxias, estão muitos, por menos. Perguntei-lhe o que sabia disso, ele sorriu e disse-me: o suficiente para te dizer isto e tu também sabes.

Ficámos a olhar um para o outro. Sérios. Gostamos do Zeca Afonso. Se ele for preso, ficamos sem a pessoa mais genial deste liceu.

O Marcelino seguiu para o pátio dos rapazes e eu para o pátio das raparigas, mas acho que fomos os dois a pensar no assunto. Apreensivos.

É pá, já é 1h da manhã. Não tarda, está aqui o meu pai a chatear-me por ter a luz acesa tanto tempo. Diz que abuso, por causa da conta da luz.

Que merda, que vidinha de encolhas”.

Daqui: http://www.esquerda.net/dossier/zeca-afonso-suas-aulas-eram-absolutamente-revolucionarias/47134


publicado por marius70 às 05:30
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